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Ponha a boca no trombone
Escrito por Época   
Ter, 07 de Fevereiro de 2012 18:20

Existem certos rigores que não podem ser esquecidos; afinal, já somos mais de 6 bilhões de pessoas neste planeta e um mínimo de regras não fará mal a ninguém para torná-lo um lugar suportável.

Num recente casamento, um rapaz bem apessoado e de boa família causou estranheza ao surgir de camisa polo, jeans e tênis, enquanto todos os seus amigos estavam devidamente trajados de terno, gravata e sapato lustrado, fazendo par com garotas belíssimas de vestido longo, decotes trabalhados e penteados e maquiagem irretocáveis.

Pensei na mãe da noiva, que gastou os tubos para casar sua filhinha numa cerimônia de sonhos. No trabalho do cerimonialista, que regeu minuciosamente um exército de garçons, decoradores, doceiros e até valets para que tudo corresse na mais exígua perfeição. Naquelas mulheres que gastaram horas no cabeleireiro ou brigando consigo mesmas para escolher o vestido mais bonito. E que pensamento sobreveio à cabeça do rapaz ao colocar um tênis esculachado e uma calça qualquer? O pensamento dos convidados lia-se nos olhos de cada um: constrangimento.

Uma senhorinha, que tinha jeito de ser da família do moço, levantou-se e lhe disse umas poucas e boas; que ele voltasse para casa e se vestisse adequadamente; que ninguém fazia questão de sua presença já que ele não fazia questão de ficar bonito à altura daquele acontecimento. Ele riu da velhinha, disse que ela era careta, mas que ficou com o rabinho entre as pernas, isso ficou. Adorei.

Muito interessantes essas pessoas blasées, que estão sempre com ar de “não tô nem aí”. Fossem à feira ou à entrega do Oscar, elas acham que roupa, festa e até banho são apenas formalidades capitalistas; que sentimento verdadeiro independe de traje ou papel assinado; que roupa não mede caráter e a vida é muito mais do que essas bobagens. Queria vê-las de calça surrada e T-shirt rasgada na polícia de um aeroporto americano, onde a maneira como se está vestido significa se você poderá entrar no país ou será deportado.

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Agora existem outras formalidades — essas bem mais sérias. Quando você desembarca num país massacrado por uma ditadura implacável, seja ela de direita ou esquerda, tem como fingir que nada acontece e ficar muda em relação aos direitos humanos, que simplesmente não são levados em conta por ali? Ou a educação recomenda que nada se diga; que, quando se aceita o convite para ir à casa de alguém, não se comentam as cortinas puídas, a pintura mal-acabada e a poeira acumulada sobre os móveis? Bem, depende; quanto às sujeiras, eu me calaria. Mas se visse a empregada da casa acorrentada ao pé da mesa da cozinha, sairia correndo chamando a polícia. E, definitivamente, não frequentaria esse tipo de gente.

Cuba foi o sonho romântico de toda uma geração. Os que suspiram pela ilha fingem que não veem as atrocidades dos Castro e evocam o bom atendimento hospitalar e as baixas taxas de analfabetismo, como se essas não fossem obrigações dos governos — sem qualquer prejuízo às liberdades individuais e aos direitos humanos. Fato é que todos os regimes “comunistas” que passaram pelo planeta no século 20 mostraram que de comunistas só tinham o nome, nome este que mascarou ditaduras sanguinárias e ajudou a angariar simpatia de uma tola intelligensia esquerdista.

Outro silêncio que me choca: onde estão alguns artistas baianos neste momento em que a situação calamitosa da Bahia chegou ao cúmulo do desespero? Logo eles, sempre tão intelectuais, cheios de opinião sobre tudo e todos. Fora raras exceções, sinto falta das vozes indignadas contra o estado de penúria e abandono a que chegou minha tão amada Salvador — e isso não faz pouco tempo. A cidade está suja, amedrontada, os tabuleiros de acarajé estão mudos, num luto constrangido. Não adianta cantar a alegria do povo baiano quando ele está triste. É impossível continuar com a política do “tira o pé do chão”, para usar o bordão dos trios elétricos.

Neste momento, a Bahia tem a necessidade mais do que urgente de colocar os dois pés no chão. Que seus filhos, a despeito de amizades e simpatias, levantem sua voz para restabelecer a paz e a dignidade dessa terra onde nasceu o Brasil.

Sim, às vezes é preciso mandar os bons modos às favas e rodar a baiana. A História prova que as grandes mudanças no planeta aconteceram na base do grito.

Informação | Época, por Bruno Astuto - Compartilhe: NovoBr

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