Hoje, dia 13 de dezembro, é aniversário da maravilhosa escritora brasileira Adélia Prado. Nascida em 1935 em Divinópolis – Minas Gerais, Adélia é um encanto para os apreciadores de poesia. Segundo Carlos Drummond de Andrade: “Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: esta é a lei, não dos homens, mas de Deus. Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis”.
Adélia poetiza o cotidiano com doçura, leveza, profundidade, simplicidade, beleza, encanto. Seus primeiros versos foram escritos em 1950, ano da morte de sua mãe. A mãe – e a saudade que Adélia sente dela – aparecem em muitos de seus poemas. É com extrema beleza que ela fala do amor (“essa palavra de luxo”, não nos esqueçamos) entre seus pais: “Ensinamento Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento. Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo: “Coitado, até essa hora no serviço pesado”. Arrumou pão, deixou tacho no fogão com água quente. Não me falou em amor. Essa palavra de luxo.” Adélia fala da mãe, do pai, de Deus e das mulheres, da vida no interior e dos pecados, fala das perdas, dos desejos, dos amores – fala de tudo um pouco, de um jeito delicado que lhe é tão próprio. A mulher que empunha a bandeira ou que limpa os peixes que o amado traz para casa: Adélia encarna uma multiplicidade de femininos. Porque o feminino, a gente sabe, não é conceito estático. E Adélia flui, despedaça-se em muitas. Trazemos, aqui, mais alguns de seus belos poemas: “Casamento Há mulheres que dizem: Meu marido, se quiser pescar, pesque, mas que limpe os peixes. Eu não. A qualquer hora da noite me levanto, ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar. É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha, de vez em quando os cotovelos se esbarram, ele fala coisas como “este foi difícil” “prateou no ar dando rabanadas” e faz o gesto com a mão. O silêncio de quando nos vimos a primeira vez atravessa a cozinha como um rio profundo. Por fim, os peixes na travessa, vamos dormir. Coisas prateadas espocam: somos noivo e noiva.” *** “Com licença poética Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos — dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou.” *** “Poema Esquisito Dói-me a cabeça aos trinta e nove anos. Não é hábito. É rarissimamente que ela dói. Ninguém tem culpa. Meu pai, minha mãe descansaram seus fardos, não existe mais o modo de eles terem seus olhos sobre mim. Mãe, ô mãe, ô pai, meu pai. Onde estão escondidos? É dentro de mim que eles estão. Não fiz mausoléu pra eles, pus os dois no chão. Nasceu lá, porque quis, um pé de saudade roxa, que abunda nos cemitérios. Quem plantou foi o vento, a água da chuva. Quem vai matar é o sol. Passou finados não fui lá, aniversário também não. Pra quê, se pra chorar qualquer lugar me cabe? É de tanto lembrá-los que eu não vou. Ôôôô pai Ôôôô mãe Dentro de mim eles respondem tenazes e duros porque o zelo do espírito é sem meiguices: Ôôôôi fia.” Informação | Ebooks Gratis |