1- O Insight
Um fato recente me chamou a atenção de forma bastante perturbadora. Ao começo de março, viajei a Belo Horizonte com a simples intenção de assistir ao espetáculo de stand up comedy de um de meus maiores ídolos no quesito: o jornalista e humorista Rafinha Bastos. Assisti ao excelente show. Dei boas risadas e aplaudi com vontade. Ao final, o humorista abriu um espaço para atender os fãs, com fotos e autógrafos. Fiquei. Estava com algumas amigas e éramos as últimas da fila. Tanto que nem ficamos em pé, nos sentamos nas poltronas e esperamos calmamente ele atender todos os que estavam ali. Ele, muito simpático e sempre sorrindo. Os fãs saíam satisfeitos, com imagens e assinaturas. Três ou quatro garotas, descontentes de estarem no final da fila, ficaram apoiadas na beirada do palco, gritando coisas como “Lindo! Gostoso!” e atrapalhando o atendimento do artista. Em um certo momento, Rafinha Bastos foi obrigado a pedir as meninas que parassem de gritar. Elas não respeitaram. Continuaram inconvenientes e atrapalhando todos que ali estavam. Apesar das tentativas, elas foram atendidas ao seu devido tempo, e ele tratou-as com a mesma dignidade com a qual se portou com os demais. Justo, porém não fácil, pois elas continuaram com seus gritinhos histéricos. Antes de saírem do estabelecimento, ainda gritaram mais algumas coisas, o que rendeu risos de deboche dos que ali ainda estavam: eu, minhas amigas, produtores, seguranças e o próprio comediante. Fomos atendidas, conversamos sobre diversas coisas, inclusive recebi dicas para minhas próprias apresentações de stand up comedy. Mesmo exausto, tendo atendido centenas de fãs pessoalmente, ele foi um verdadeiro “changeman” (quem já assistiu ao show de Rafinha, sabe do que estou falando!). 2- O que acontece
Essas garotas inconvenientes do show de Rafinha Bastos me atentaram para um fato curioso que, confesso, não me lembro de ter visto algo semelhante antes. Fãs histéricas sempre existiram. Galãs de novela, modelos internacionais e mocinhos de banda pop sempre foram assediados por garotas que admiram sua aparência. Ainda que às vezes passe dos limites, já se tornou aceitável. O que acontece ultimamente é uma invasão de groupies para um mundo até então ignorado por elas: os comediantes. Talvez a febre da Comédia Stand Up, com o sucesso dos jornalistas e comediantes integrantes do CQC, tenha nos atentado para o fato de que humoristas não precisam ser, necessariamente, feios e desengonçados para fazer rir. Os moços do Custe o Que Custar são bem apessoados, se vestem de forma elegante e conseguem sim, arrancar boas risadas. Com certeza uma descoberta incrível no mundo feminino. Quem não quer um homem inteligente, que nos faça rir e que ainda por cima, tenha uma aparência legal? É a união de itens que, antes pensava-se, eram encontrados em diferentes ambientes. Não gosto de pagar de “sou mais fã do que você”, mas pessoas que admiram os comediantes Danilo Gentili e Rafinha Bastos apenas pela sua aparência e atual (talvez passageira) popularidade, realmente me deixam intrigada. Nunca comediantes foram tão cobiçados e essa fixação se estendeu para além daquilo que, creio eu, a originou. Outros comediantes também perceberam essa mudança de comportamento que, para o bem ou para o mal, surgiu repentinamente como um boom de expectativas. Meninas dispostas a bajular e oferecer o que for preciso para o seu ídolo, pessoas que idolatram supostamente o trabalho de uma pessoa sem ao menos conhecer do que se trata, desvalorização daqueles que lutaram e trabalharam duro para conquistar um espaço que, por algumas pessoas, foi cedido por motivos adversos daqueles antes pretendidos. BANALIZAÇÃO.
3- E agora?
Não sei quanto tempo esse deslumbre vai durar. Ou se, diferente da minha perspectiva, veio para permanecer na nossa sociedade. O que temia, já começou a acontecer e não há nada que eu possa fazer para reverter essa situação, além de escrever páginas (como essa?) que poucas pessoas se disponibilizarão a ler. Afinal, tudo isso aqui relatado, embora por vezes floreado por uma prolixidade inerente, não passa de minha tão dispensável opinião no assunto. Posso estar equivocada em cada linha que escrevi, mas acho que expus o meu pensamento e essa era unicamente minha intenção. O que resta a fazer, por mim e por você, que por ventura tenha concordado com algumas de minhas considerações, é continuar a acompanhar o trabalho daqueles que realmente fazem valer a pena. E nos abster de atitudes deploráveis como das três ou quatro, lá de cima, que além de serem uma pedrinha no sapato de várias pessoas (inclusive, em certos casos, dos próprios artistas), denigrem a imagem de nós, meros fãs que querem simplesmente acompanhar o trabalho e elogiar sinceramente, quando merecido. Tenho dito. Marielle Zum Bach escreve em seu blog Utopiada e para o Divicity.com (siga @mariellezumbach) |