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Mostra com obras de G.T.O. resgata a significação universal do artista
Escrito por Uai   
Ter, 22 de Novembro de 2011 14:00

G.T.O. cultivava cabelos longos por sugestão de seu barbeiro, para parecer "playboy"A vida é uma roda que se movimenta, fazendo com que as pessoas ora sejam levadas para o alto, ora para baixo. Visão de mundo entalhada caprichosamente na madeira pelo mineiro Geraldo Teles Oliveira (Itapecerica, 1913 – Divinópolis, 1990), o G.T.O.

Ele é um dos mais importantes escultores brasileiros. Foi o homem simples que, desempregado, encontrou na arte um modo de sustentar a família. Vendeu peças nas ruas, viu seus trabalhos em bienais no Brasil e no exterior, ensinou os filhos a cultivar o ofício. Vinte e um anos depois de sua morte, e próximo das comemorações do centenário de nascimento, em 2013, o artista ganha homenagem em Belo Horizonte.

Dezesseis esculturas, mostrando produção dos anos 1960 até 1980, estão em exposição que vai ser aberta hoje, às 19h30, no Sesc Palladium. É mostra completa: trabalhos restaurados, catálogo, documentário com depoimento de familiares e amigos do artista. O local da exposição, em mais uma deferência merecida, ganha o nome de Galeria de Arte G.T.O.

“É obra que tem profundidade de pensamento, linguagem original. Trata-se de poética diferenciada, que convida à reflexão sobre a passagem do artesanato para a arte popular e desta para a arte erudita”, observa Jorge Cabrera, curador geral da mostra. “Gostaríamos que a exposição fosse estímulo à pesquisa sobre o artista, que anda esquecido e merece ser mais valorizado”, acrescenta.

De pai para filho

Se a ausência do mestre deixa saudades, a herança artística continua vivíssima numa casa do Bairro Niterói, em Divinópolis. Lá trabalham e expõem suas criações três discípulos criados pelo escultor: Mário Teles, de 69 anos, filho de G.T.O.; Geraldo Fernandes de Oliveira, de 48, sobrinho do artista; e Milton Marcolino, de 61, casado com neta do escultor. E é impactante entrar em sala e ver dezenas de peças que seguem a estética criada por G.T.O. “Aqui estão as memórias impossíveis de esquecer”, afirma, emocionado, Mário Teles. Lá, G.T.O. comemorou, em 1974, prêmio no Salão Global de Arte, que o inseriu no circuito. “Foi momento muito feliz para meu pai, que lutava muito para sobreviver”, conta.

E foi na mesma casa que ele viu o pai, aos poucos, ir ficando doente até a morte por enfisema. G.T.O., de acordo com o filho, foi homem simples, cujos prazeres eram esculpir, pescar e fumar (para desespero da mulher, que sempre reclamou do vício). “Nunca disse ‘sou artista’. Ele afirmava que aos poucos chegaria lá”, conta. “Artista nato é o que cria sem copiar, sem estudar e isso foi uma das glórias do meu pai”, afirma Mário. “Muitos não acreditavam no que ele fazia”, recorda.

A escultura entrou na vida de G.T.O. quando, desempregado, procurando trabalho, aceitou convite do amigo Geraldo Correia, diretor de hospital em construção, para ser vigia do local. Ao ver que a obra ia chegando ao fim, procurando atividade para ajudar na sobrevivência, começou a esculpir. E passou a negociar as peças nas ruas e bares, surpreendendo conhecidos que nada sabiam daquele talento especial para a arte. O galerista Sálvio Oliveira, de Belo Horizonte, conhecendo o trabalho, vai a Divinópolis e convida G.T.O. para exposição na Galeria Guignard. “Meu pai fez as obras com toda dedicação, carinho e vontade de mostrar suas criações”, recorda.

Os primeiros trabalhos de G.T. O., conta Mário, foram inspirados no cotidiano popular. As rodas surgiram por volta de 1968. A princípio pequenas, cresceram aos poucos, “acompanhando a criatividade dele, que ia fazendo peças mais complicadas”. G.T.O. era religioso, mas não de frequentar a igreja. “Um padre, vendo na peça que ele fez para a igreja a manifestação da fé, disse que Deus perdoava ele não ir à missa”, recorda. O cabelo comprido, que chamava a atenção, mantido inclusive com peruca, surgiu por recomendação do barbeiro de G.T.O., para quem artista tinha de ser “um pouco playboy”.

banner-250-cody Em casa

O escultor G.T.O., prevenindo dificuldades, cuidou em passar aos familiares sua arte. Mário sempre ajudou pai na elaboração das peças e até representou G.T.O. (então acidentado) na abertura da exposição de estreia em BH. “Todos, até minha mãe, ajudavam quando sentiam que o pai não estava bem de saúde”, revela. Milton Marcolino, casado com neta do artista, morava na roça e não queria ir para a cidade nem esculpir. “Podia não dar certo”, observa. “Mas o ‘‘seu’’ Geraldo dizia: ‘Medo de quê?’. Eu ajudo”, recorda. “Vendia as peças da gente. E ainda dizia: ‘Não falei que o pessoal ia gostar?”, recorda. “Não sou da família, mas faço o que o professor me ensinou”, acrescenta.

Geraldo Fernandes de Oliveira, sobrinho de G.T.O., trabalhou com o tio desde menino. “Sempre admirei a simplicidade dele, o entalhe rústico. Ele tinha talento bom. Trabalhava devagar, sem desenhar, mas quando começava a entalhar a peça ficava bonita, perfeita”, recorda. Para o trio de discípulos de G.T.O, a cidade de Divinópolis está merecendo uma galeria de arte – é terra de muitos artistas que precisam ser valorizados. “Falta um Palácio das Artes na cidade”, defende Mário. Eles não escondem que gostariam de expor os trabalhos deles em um outro Palácio das Artes, o de Belo Horizonte. E em mostra com o nome de “Geração G.T.O.”.

Museu G.T.O. Criada em 2007, em Divinópolis, a Associação de Amigos G.T.O. foi responsável pela elaboração do projeto de revitalização e transformação da casa que foi o ateliê do artista em Museu Residência G.T.O.. A proposta é que no local seja abrigado acervo da família e peças do artista, hoje no Museu Histórico de Divinópolis. Como conta Celma Bosque, gestora do Museu G.T.O., já existe projeto de reforma do local, mas tudo está na dependência da aquisição do imóvel, pela prefeitura. A casa onde G.T.O morou e trabalhou fica na Rua Rubi, 283, Bairro Niterói. No local, trabalham e mostram suas obras Mário Teles, Geraldo Fernandes Oliveira e Milton Marcolino. O trio avisa que o público pode visitar o local, de segunda a sexta-feira, tanto na parte da manhã quanto da tarde.

G.T.O.

Mostra Um dia a árvore dos sonhos inopinados: acrobacias, totens, mandalas e oroboros do escultor Geraldo Teles de Oliveira. Abertura hoje, no Sesc Palladium, Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro, (31) 3214-5350. De terça a domingo, das 9h às 21h. Entrada franca. Até dia 22 de janeiro.

Informação | UAI

 

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