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Todo mundo quer propina
Escrito por Época   
Ter, 26 de Junho de 2012 17:00

Tive uma amiga que foi diretora de uma fábrica de relógios populares. Durante uma pizza, me contou satisfeita:

– Conseguimos uma superencomenda de uma rede de supermercados.

Elogiei sua competência. Ela riu.

– É esperteza!

Revelou que já conhecia o responsável pelas compras por meio de outra empresa onde trabalhara, na área de vendas.

– Com ele tem jogo. Em um fim do ano, lhe demos um carro. Em outro, uma viagem ao exterior com toda a família. Agora foi só chegar e dizer: vamos fazer um joguinho?

Fiquei pasmado. Sempre trabalhei como jornalista e escritor. Nunca como executivo de uma fábrica. Conversando mais um pouco, descobri que é “normal” que responsáveis pelas compras recebam um “por fora”. Não tenho estatísticas. Prefiro acreditar que há um grande número de profissionais honestos, que pensam somente no preço final para o consumidor. Mas a corrupção corrói o dia a dia.

Falamos muito de corrupção na política. Escândalos acontecem o tempo todo. Do suborno cotidiano mal se fala. É um “imposto” extra sobre o que pagamos em supermercados, lojas de rede. Direto, quando sugerido pelo funcionário. Indireto, se é estabelecido pelo responsável pelas compras ao escolher os fornecedores. Nesse último caso, seria ingenuidade achar que o valor da propina não afete o bolso do consumidor. Além de conviver com uma carga tributária altíssima, somos obrigados a suportar esse “imposto” extra.

É difícil não conviver com o banditismo entranhado no corpo da sociedade. Eu frequentava um restaurante luxuoso em São Paulo.

Entregava o carro ao manobrista e ele me dava um recibo, para pagar com a conta. Nas últimas vezes, pedi:

– Cadê o papelzinho?

– O senhor não precisa – disse o valet.

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Claro que, ao sair, dei gorjeta. A situação se repetiu outras vezes. Então caiu minha ficha. O rapaz não me dava o recibo para eu não pagar o estacionamento do restaurante, e ele próprio embolsar a gorjeta. Eu o ajudava a roubar o restaurante! Não voltei mais lá. Que fazer quando for? Discutir para pegar o recibo? É uma situação simples. Mas que demonstra como estamos cercados pela roubalheira.

Certa vez estava em Santos, no litoral paulista. Acompanhei um primo na visita a um amigo de férias na praia. Para minha surpresa, o primo aproveitou para finalizar a encomenda de uma carga de produtos químicos para a empresa onde o amigo era executivo. Acertaram quantidade e preço. Então, na frente da mulher, dos filhos e até de mim mesmo, que nem sequer conhecia, o amigo perguntou:

– E o meu?

Meu primo respondeu tranquilamente.

– Já está na conta: 30%.

Fiquei furioso por ser levado a testemunhar a situação. Mais tarde, reclamei com meu primo. Ele disse:

– Se eu não fizer isso, não vendo nada. Todo mundo quer propina.

A corrupção corre como sangue nas veias da sociedade brasileira. No passado, o ministério e secretarias de Educação de cidades e Estados compravam livros e enviavam a escolas. Isso continua acontecendo. Mas criou-se também um “vale livro”. Os responsáveis pelas escolas recebem uma determinada quantia em vales para comprar diretamente os títulos de sua preferência em feiras e salões literários. A ideia não poderia ser melhor, pois descentraliza a escolha. Pelo menos é o que eu achava. O responsável pelos estandes de uma grande livraria me contou que é comum a exigência de um acordo. Quem vai fazer as compras exige um “por fora”. Em troca, gasta tudo o que tem numa só livraria ou editora.

– Outro dia uma diretora disse que precisava trocar de carro. É o cúmulo, mas não podia deixar de vender, disse.

Também quero frisar: a maioria das educadoras não faz isso. Tenho bastante intimidade com feiras e salões literários para garantir. Mas acontece. E a boa intenção da ideia vai para o lixo.

Há tanta corrupção que a gente nem tem mais consciência que é. Já vi cliente dar gorjeta ao açougueiro do supermercado para garantir um filé melhor. Tem quem dê gorjeta ao maître para passar na frente da fila de espera de restaurante. Colunistas sociais espalhados pelo país elogiam quem dá presentes. Alguns médicos da rede pública pedem um extra para operar um necessitado. Tem até uma senha: PF. E por aí vai.

Faço um esforço diário para evitar esse mundo onde ter vantagem é tudo. Só vejo uma saída: denunciar os safados a quem de direito. Tolerância zero para a corrupção! Mesmo que o corrupto seja aquele vizinho tão simpático.

Informação | Época, por Walcyr Carrasco

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