Tadalafila após câncer de próstata: tratamento pode ajudar na recuperação da função erétil
A disfunção erétil é uma das consequências mais temidas do tratamento do câncer de próstata. Medicamentos como a tadalafila podem fazer parte da reabilitação sexual e, em determinados pacientes, a recuperação da ereção pode superar 70% no primeiro ano.
Receber um diagnóstico de câncer de próstata traz uma preocupação óbvia: vencer a doença. Mas existe outra pergunta que muitos homens têm dificuldade até mesmo de fazer no consultório:
“Como ficará minha vida sexual depois do tratamento?”
A preocupação é legítima. Cirurgia, radioterapia e tratamentos hormonais podem provocar alterações importantes na função sexual. A boa notícia é que ter câncer de próstata não significa necessariamente o fim da vida sexual.
Hoje, a chamada reabilitação sexual pode envolver medicamentos como a tadalafila, acompanhamento multidisciplinar e, quando necessário, outras alternativas terapêuticas.
Por que o tratamento do câncer de próstata pode afetar a ereção?
Na prostatectomia radical, procedimento no qual a próstata é retirada, estruturas nervosas fundamentais para a ereção ficam muito próximas da região operada.
Mesmo quando o cirurgião consegue preservar esses nervos, eles podem levar algum tempo para recuperar sua função.
Segundo o urologista Felipe Glina, fundador e coordenador do Ambulatório de Oncossexualidade e Oncofertilidade do A.C.Camargo Cancer Center, até 60% dos pacientes submetidos à prostatectomia radical robótica podem apresentar perda significativa da função sexual durante o primeiro ano.
Em tratamentos que envolvem bloqueio hormonal, sozinho ou associado à radioterapia, esse percentual pode ser ainda maior.
É justamente nesse período que estratégias de reabilitação podem ganhar importância.
Onde entra a tadalafila?
A tadalafila pertence à classe dos medicamentos conhecidos como inibidores da PDE5 e é utilizada, entre outras indicações, no tratamento da disfunção erétil.
Após uma prostatectomia, o médico pode avaliar seu uso como parte de uma estratégia de recuperação da função erétil.
De acordo com Glina, o tratamento contínuo antes e depois do procedimento pode contribuir para a proteção dos tecidos eréteis e favorecer a recuperação.
Nos pacientes em que foi possível realizar a preservação bilateral dos nervos, a recuperação da ereção pode ocorrer em mais de 70% dos casos até o final do primeiro ano, segundo o especialista.
Mas há um detalhe fundamental: esse número não significa que tomar tadalafila fará 70% de todos os pacientes recuperarem a ereção.
O resultado depende de fatores como idade, condição sexual anterior ao tratamento, doenças associadas, técnica cirúrgica e possibilidade de preservação dos nervos.
Tadalafila não produz ereção automaticamente
Existe também uma confusão frequente sobre como o medicamento funciona.
A tadalafila não funciona como um botão de liga e desliga da ereção.
Ela facilita a resposta erétil ao melhorar o fluxo sanguíneo, mas continuam sendo necessários desejo e estímulo sexual.
Depois de uma cirurgia de próstata, os nervos responsáveis pela resposta erétil podem permanecer temporariamente comprometidos. A recuperação pode levar meses e varia bastante de um paciente para outro.
Por isso, paciência — e acompanhamento médico — também fazem parte da reabilitação.
E tomar tadalafila por conta própria?
Não é uma boa ideia.
Embora o medicamento tenha se popularizado muito além dos consultórios médicos — inclusive com uso recreativo e até como suposto “pré-treino” —, tadalafila é medicamento e possui contraindicações, interações e possíveis efeitos adversos.
Especialmente em pessoas que utilizam determinados medicamentos cardiovasculares, a combinação pode ser perigosa.
Portanto, não se deve iniciar tadalafila após um tratamento contra o câncer sem avaliação médica individualizada.
Quando o comprimido não resolve, existem outras opções
A recuperação sexual depois do câncer de próstata não termina nos medicamentos orais.
Quando a resposta à tadalafila ou a outros medicamentos da mesma classe não é suficiente, o urologista pode discutir alternativas.
Entre elas estão as injeções intracavernosas, que aplicam medicamentos diretamente no pênis para provocar uma resposta erétil.
Para determinados pacientes, também existe a possibilidade de implantação de uma prótese peniana.
Ou seja: mesmo quando a ereção espontânea não retorna como esperado, isso não significa necessariamente abrir mão da atividade sexual.
Ereção, orgasmo e ejaculação são coisas diferentes
Aqui está uma informação que ainda surpreende muitos homens.
Depois da retirada da próstata, um paciente pode ter ereção e chegar ao orgasmo sem ejacular sêmen.
Isso acontece porque próstata e vesículas seminais participam da produção do líquido ejaculado e são afetadas pela cirurgia.
Portanto, são três fenômenos diferentes:
ereção é o enrijecimento do pênis;
orgasmo é a experiência de clímax sexual;
ejaculação é a emissão do sêmen.
Um homem pode continuar experimentando orgasmos mesmo sem ejaculação.
E quem ainda pretende ter filhos?
Esse assunto precisa entrar na conversa antes do tratamento.
Como alguns tratamentos para câncer de próstata podem comprometer permanentemente a fertilidade, homens que desejam ter filhos no futuro devem conversar com a equipe médica sobre alternativas de preservação da fertilidade, como o congelamento de sêmen.
Esperar até depois da cirurgia pode significar perder essa possibilidade.
O psicológico também participa da vida sexual
Nem toda dificuldade sexual após um diagnóstico de câncer é exclusivamente física.
Medo da morte, ansiedade, alterações na imagem corporal, insegurança em relação ao desempenho e mudanças na dinâmica do relacionamento podem interferir diretamente no desejo e na resposta sexual.
Por isso, a abordagem moderna da sexualidade após o câncer não deveria ficar limitada ao pênis.
Urologistas, oncologistas, psicólogos, fisioterapeutas e profissionais especializados em sexualidade podem participar do processo de recuperação.
É justamente essa a proposta da oncossexualidade: olhar para a saúde sexual como parte da qualidade de vida do paciente oncológico.
Cuidar da saúde cardiovascular também ajuda a ereção
Existe uma ligação íntima entre saúde cardiovascular e função erétil.
Exercícios físicos regulares, alimentação equilibrada, sono adequado, controle do peso, da pressão arterial, do diabetes e do colesterol ajudam o organismo como um todo — e também favorecem a saúde vascular necessária para uma boa ereção.
A máxima usada por especialistas é simples: o que faz bem para o coração tende a fazer bem para a ereção.
Falar sobre sexualidade também faz parte do tratamento
Durante muito tempo, sobreviver ao câncer parecia ser o único resultado que importava.
Não é mais assim.
Sobrevida continua sendo a prioridade, evidentemente, mas qualidade de vida, intimidade, fertilidade, autoestima e sexualidade também precisam fazer parte das decisões terapêuticas.
Principalmente porque muitos homens ainda chegam ao consultório carregando a ideia de que falar sobre dificuldade de ereção significa questionar a própria masculinidade.
Não significa.
Perguntar ao médico sobre ereção, desejo, orgasmo ou fertilidade é simplesmente cuidar da saúde.
E talvez essa seja a mudança mais importante: vencer o câncer não precisa significar abandonar uma parte importante da vida depois dele.





